Made With Paper

Made With Paper

Barbudo :) #instabeard #bearded #beard #bear #instabear

-Espera um instante mãe, me deixa pegar a cestinha.
-Cestinha? Quê cestinha o quê menino! Até parece que não me conhece! Trinta e oito anos e ainda não me conhece, é? Essa história de cestinha não é pra mim. Não acho isso normal. Se for pra andar pelo mercado, tem que ser com o bendito do carrinho. Nunca entendi essa história de sofrer duas vezes no mercado. E se você é casada então? Sofre três vezes. Sofre por tentar empilhar os produtos naquele espaço minúsculo dessas cestinhas de mercado, sofre a segunda vez tendo que procurar a porcaria da comida com o melhor preço, ao mesmo tempo tendo que lembrar qual é a marca que não presta. Duas já bastam. Agora, ter que arrastar o marido, parecendo uma múmia, reclamando que você está demorando e que vai perder o jogo, daí é sacrifício demais. E você sabe que não sou muito de engolir sapo, mas pelo amor! Não acho isso normal.
-Mãe, não somos a família mais normal do mundo.
-Claro que não! Onde já se viu, você, rapaz feito, com trinta e oito anos só e já divorciado? Precisando da mãe para ajudar o que decidir para as compras do mês? Não acho normal, Fred. Não acho e pronto. E pega logo esse carrinho, que não sou mulher de ficar carregando carrinho de compras para marmanjo.
-Mas mãe…
-Sem mais. Sem mais Fred. Sem. Mais. Não agüento essa história de ficar arranjando desculpas para o porquê de a Joyce ter te deixado para ir atrás de um músico. Pra começo de conversa, não acho normal pessoas se divorciarem. Eu e o teu pai vivemos juntos até ele dar o último suspiro, aquele desgraçado. Mas nunca me divorciei dele. Estava lá com ele, mesmo sabendo que ele dava uma com a vaca da vizinha no 407, mas quer saber? Ele me deu você. Me deu muito dinheiro e me deu você. E sou grata por todas as coisas que aquele canalha me deu. Agora tenho você e tenho dinheiro.
-Que horror, mãe.
-Horror? Horror!? Horror mesmo é o preço dessas toalhas vagabundas estar tão caro! Onde já se viu? E ainda por cima colocam na etiqueta que veio de um daqueles países pobres. Escravizam a população mais necessitada, compram por um preço bem menor do que da concorrência, porque nessas populações pobres eles vendem até o cachorro, quando tem cachorro, para poder sobreviver. E quem compra desse povo – um bando de sem-vergonha sem mãe, Fred – Vão lá e vendem pelo quádruplo do valor. Não acho isso normal.
-Espera, esqueci o macarrão.
-Não vai pegar aquela bosta de macarrão instantâneo outra vez. Vê se me obedece, menino, já te disse. Se fosse normal viver de macarrão instantâneo, ia ter prescrição médica para comprar. Não me interessa quem fez: se foi chinês, italiano, holandês, o papa! Não presta e pronto. Quando você estiver com a minha idade e precisar ficar ao lado de uma máquina de hemodiálise a cada dois dias, aí você vai me entender. Ah não! Não levanta esse dedo pra falar comigo não! Se você não sabe cozinhar direito, não é culpa minha! Eu te chamava, Fred, seu ingrato! Toda vez que eu ia preparar um bifinho frito, um arroz, um feijão. Sempre chamei você. Mas você queria aprender a fazer alguma coisa na cozinha? Não! Queria ficar enfurnado no quarto, jogando aquela droga daquele videogame. Não acho isso normal. Nunca achei. Gente normal não fica na frente da TV, quase vesgo de tão perto, só pra sair matando todo mundo. Por falar em todo mundo, você viu aquele desgraçado que entrou numa escola e atirou em um monte de gente? Vi na TV que deve ser culpa de videogame. Faz todo mundo ficar agressivo. Eu mesmo, queria matar o corno do teu pai por ter comprado aquela caixa do mal, viu? E nunca apertei nenhum daqueles botões. Não precisa nem encostar naquilo, só deixar na casa, e as pessoas já ficam agressivas. Não pode ser normal.
-Mãe, isso é besteira. Logo depois, várias pessoas apontaram estudos que desmentem isso. Não existe essa história de videogame deixar mais violento. As pessoas já nascem assim.
-Não interessa Fred. Pra mim é assim e ponto. Igual essa margarina aqui, ó. Onde já se viu essa história de zero porcento de gordura trans? Na minha época, não existia nada disso. E todo mundo era sadio. Não existia a tal da gordura trans. Por que? Porque isso não é normal.
“Sabe Fred, às vezes acho que o mundo está todo pirado. Essa tal de modernidade meche com todos os padrões. Não podia existir isso. Olha ali, por exemplo. Onde já se viu começar as compras do mercado pelo horti-fruti? Não consigo conceber uma pessoa que vai lá, me compra um mamão e depois enfia as compras por cima. Mamão é o tipo de fruta que quando fica marcada, ninguém quer comer. Já pensou se ao invés de eu colocar a bandeja de ovos na parte de cima, colocasse no fundo do carrinho? Iríamos comprar a abobrinha que está em promoção, passaríamos para os tomates e a batata, pegaríamos um cafezinho com aquela menina ali distribuindo degustação, eu conversaria com você, você pegaria a melancia pra mim porque ela não está muito leve e minhas costas já não são as mesmas e pronto! Não sobraria um ovo inteiro. Todos quebrados. Eu sei, a gente se distrai, meu filho. É por essas e outras que não acho normal começar pelo horti-fruti. É pedir pra acontecer um acidente desses. Até parece que esse povo nunca acompanhou mãe em mercado. Vai ver, não tinham mãe. Eu ein! Mesmo assim. Custa olhar pra qual lado vai o fluxo de pessoas? É tão difícil assim não ser do contra? E olha Fred, vai pesar esses legumes. Não vou ficar andando com sacola na mão. Quem precisava fazer compras era você.
-Mãe, mãe, mãe. Às vezes fico tão triste por não ter você por perto, sabia?
-Eu também, filho, eu também. Mas é como dizem. Mãe é só uma, cuide bem dela. Até Jesus teve mãe. Acho que todos os profetas e mártires de todas as culturas tiveram também, não? Não nasceram do nada. Tinha uma mãe lá, fazendo força, suando frio pra trazer eles pra vida. Não acho normal tanta discussão sobre qual religião é certa, qual é errada. Qual Deus é verdadeiro. Deus é Deus. É um só. Só fico me perguntando por que Adão e Eva. Isso deve ser coisa dos homens, não de Deus. Tenho certeza que antes de Adão e Eva, ele criou uma mãe! Há!
-Mãe, não fala essas coisas alto, vai.
-Não acho normal recriminar mãe, então comporte-se.
-Ok mãe, ok. Vou passar as compras no caixa.

***

E lá vinha ele. Devia ser louco mesmo, coitado. Nas primeiras vezes ela duvidou que fosse verdade, mas, vindo em sua direção, não tinha como negar. O empacotador deu um cutucão nela, com aquela risadinha infame. Soltou um “hoje sobrou pra você outra vez”.
O pior era isso. Sempre sobrava esse povo estranho pra ela. Cada um com uma mania. Mas esse era o único que fazia ela ficar com certa dó. Ela respirou fundo e pensou na hora em que o expediente acabaria. Quando chegaria em casa para os braços da Letícia, com seus seios firmes que deixavam-na louca. Ela se sentia a mais sortuda, por ter aqueles lábios carnudos e aquele cheirinho só para ela. Mas antes de mais nada, precisava passar as compras daquele rapaz. Onde já se viu um rapaz feito falando sozinho pelo mercado? Chacoalhando a cabeça e fazendo voz de mulher e de homem ao mesmo tempo? Não era normal. Ah, não era normal mesmo.

Presentes da @cricxtina vindos da terra do Tio Sam! Demorei um pouco pra postar por conta de um incidente… com o pirulito de escorpião, kkkk! #gifts #euagifts #mickeykeyring #macarroni&cheese #spongebob #scorpionsucker #larvets #converse #allstar #eua

(Fonte: lunathepug)

theeraserhead:

2001: A Space Odyssey (1968) Directed by Stanley Kubrick.

theeraserhead:

2001: A Space Odyssey (1968) Directed by Stanley Kubrick.

(Fonte: xygni)

O Reino Tomado completou 3 anos hoje!

(Fonte: assets)

Album Art

(Fonte: pepgold)

Played 1845 times.
"Não nasci para ser adequada, coerente, adorável. Nasci para ser gente. Para sentir de verdade. Tenho vocação para transparências e não preciso ser interessante o tempo todo. Por isso, não espere que eu supere as suas expectativas: às vezes, nem eu supero as minhas."
Marla de Queiroz. (via extinta)

(Fonte: momentos-so-meus)